sem poder deter a água
viva nossa insignificância
I
eu cresci na praia, encarando uma longa faixa de areia diante de um mar aberto - que alguns chamam de mar grosso por ser bastante agitado na maior parte dos dias. além da água gelada, as ondas costumam ser imponentes, o que significa que, se quiser tomar um banho de mar, não é recomendado que você entre de qualquer jeito, em qualquer lugar aleatório da praia. levar caldos sempre é possível e pode acontecer quando você não espera - é bom estar com o biquíni bem amarrado.
em outras palavras, é perigoso se você não souber nadar ou não estiver atento, mas o mar é sempre um convite ao mergulho e a viver apesar do perigo. é um bom professor para a vida.
durante os verões, desde pequena, meu pai nos convidava a encarar o mar, observar os locais de repuxo e procurar pontos mais seguros para tomar banho. muitas vezes eu concordava sem entender, fingindo ver o local em que o mar engoliria qualquer um com facilidade, mas outras vezes eu via mesmo e a coisa toda fazia sentido.
apesar dessa vivência marítima, minhas lembranças de um mar de ressaca são relativamente recentes. uma vez, já com uns 11 anos, me lembro vivamente da água avançando por parte das dunas, que eram o caminho até a casa em que vivíamos, engolindo a praia toda com ondas altas e violentas. lembro de me impressionar e fazer fotos em um celularzinho de botões com uma câmera fajuta.
depois disso, como é normal que aconteça, a ressaca e maré alta se repetiram, mas não tinham mais sido eventos marcantes pra mim. até que há algumas semanas, querendo pegar sol e dar um mergulho, fui surpreendida por uma praia engolida pelas ondas. fiquei com raiva, principalmente da sensação de desperdício de um daqueles pouquíssimos dias de recesso, e incomodada com o barulho insistente de vento no meu ouvido. como se aquelas ondas imponentes me roubassem não só a faixa de areia, mas outra coisa também.
meu marido insistiu que a gente ficasse pelo menos um pouco. caminhamos e passamos um tempo sentados no alto das dunas. fiz o exercício de olhar a imensidão do mar e perceber o quanto ele escancara nossa fragilidade e denuncia nossa pequeneza nesse mundo. aquela maré toda nem aí pra minha irritação. como é bom lembrar do nosso tamanho e da nossa insignificância no mundo.
II
Loa para um dia a mais
1.
sem poder
quebrar a pedra
a água esculpe
na pedra
o que há de pedra
esquecido
no seu quem
próprio
de
água
2.
sem poder
deter a água
a pedra enfim
reconhece
no gesto
lento
e constante
da água
seu quem
de pedra
ricardo aleixo
Caravelas
Quando os peixes dormem
contra o jade da água
e o mar respira fundo
com o vigor das ondas
batendo contra os cascos desfeitos dos navios
(quando então os peixes mais pesados
sonham as sereias, os corais,
as águas-vivas, as enseadas e o sal)
sabemos que as mesmas marés
escondem recifes
e fabricam a espuma -
a regularidade é uma invenção delas:
as caravelas não são livres.
O poema aprende com o mar
a colocar os corpos em perigo
ana martins marques
III
algo de um horizonte que se expande: depois de um ano deitando no mesmo divã, no exato mesmo local da cidade, me dei conta que nunca tinha reparado que o consultório tem vista pro mar.
minha miopia foi corrigida cirurgicamente em 2025, mas olhar-mais-longe e se permitir horizontes outros exige um compromisso contínuo.
pra fugir da monotonia de uma vida sem desejo precisa ser assim.
-
que 2026 nos dê oportunidades de ampliar nossas formas de ver e estar no mundo.
obrigada por me ler até aqui.
um abraço,
pietra inácio

